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Chen jambe*

9 de janeiro de 2010

* Possível forma escrita da palavra local para “comer na rua”

Desde que desembarcamos nessa ilha nossa relação com a comida vai se tornando cada vez mais curiosa. Começamos com um jantar chinês num bairro étnico de São Domingos, continuamos com um prato típico do lugar – frango, arroz, feijão com molho de tomate e bananas preparadas de maneiras diversas… Aqui em Port-au-Prince a coisa foi tomando um colorido todo especial, até porque as nossas refeições são sempre assistidas por uma multidão que nos examina de cima a baixo.

Aqui já comemos em casa, em restaurantes e há dois dias passamos a comer na rua. Sim, as ruas poluídas por todos os tipos de sujeira, fumaças de mil motores, gente gritando… e nós sentados dentro de um carro colorido comendo! A comida inicialmente perdida no meio de uma multidão em pé é retirada de latas e panelões e vendida para pessoas que ficam por ali comendo com colheres em suas embalagens de isopor.

Essa é a típica comida Crioula: carrega consigo esse adjetivo que percorre a língua, a arte, a alimentação, sendo parte da identidade nacional. O que comemos por enquanto não é ruim, pelo contrário. A comida é bem próxima do que conhecemos aí no Brasil e bastante apimentada. A combinação mais comum é a mesma que encontramos no prato típico da República Dominicana. Mas aqui, ela vem acompanhada de uma coisa que não sabemos se é repolho muito apimentado ou simplesmente um tipo de pimenta.

Hoje comi uma gororoba de milho que parecia uma sopa de canjiquinha com feijão e a grande surpresa – Temperada com cravos.  É bizarro, mas é gostoso. Comemos sempre acompanhados de risinhos de haitianos e de alguns refrigerantes que o Diego pode descrever melhor que eu. Ao que parece os Blan (uma palavra cujo significado literal é “branco”, mas que quer dizer algo próximo a “estrangeiro”) nunca comem nas ruas. E nós não somos poucos e estamos sempre juntos. É um evento para eles. Somos tão estranhos que eles chegam a ficar parados com os queixos nas mãos nos observando.

Talvez seja esse receio de comer nas ruas que faz os restaurantes terem fregueses que pagam cinco vezes mais por uma comida igual. Ainda não comemos o típico café da manhã – espaguete – mas acho que não escaparemos. Do que experimentamos até agora posso dizer que a cerveja é boa, o sorvete, artigo raro, é uma delícia, o pé de moleque leva gengibre e os olhares são curiosos.

A comida na rua é sempre uma confusão. Ontem, respeitando um pedido do Omar, formamos uma fila para pegar o almoço. Com isso,  agindo como estamos acostumados, atraímos risinhos de haitianos que nos perguntavam  se estávamos na escola. Hoje nos rodearam enquanto comíamos: pessoas apontando, gente rindo, fazendo piadas, vendedores de água, refresco, artesanato e discos surgindo de todos os lugares. No começo era meio constrangedor, mas a comida vem compensando isso. Ao comer esquecemos os olhos e a curiosidade, nos pratos de alguns não sobram nem os ossinhos.

Marcos Pedro (“Miguilim”)

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5 comentários

  1. hehehe adorei o texto! (e os novos apelidos)
    Não faço nem idéia de como é se sentir assim tão diferente de todos a ponto de chamar atenção! Mas certamente passar por essa situação vai mudar muitas concepções de vocês! Gostaria muito de estar aí com vcs!!
    beijoss


  2. Começo a achar que aqueles relatos do Gerz não estão tão no passado como eu imaginava…
    Parbéns pela iniciativa e pela coragem…
    bjos


  3. Compartilho com vocês, a minha dor e o sentimento de indignação e impotência em saber de tanta miséria, calamidade e, em meio a este turbilhão de sofrimento, ainda assim, desigualdade, onde, prioritariamente, a ajuda deveria ser para crianças e idosos, independente, da classe social.

    Hoje, mais do nunca, repenso muito meu papel enquanto professora pesquisadora e sobretudo, como ser humano. Quero poder contribuir para que este mundo um dia, seja melhor, bem melhor!

    Minhas sinceras condolências.

    Alexandra Quadro Siqueira
    Pesquisadora da Universidade Federal da Bahia


  4. Olá Marcos. Estou neste blog praticamente 24 horas para saber noticias suas. Estou preocupado mas ao mesmo tempo tranquilo porque sei que esta experiência será importante para todos. Tome cuidado. Fique alerta. Estou rezando por todos vocês. Tudo vai dar certo.
    Gaspar.


  5. É realmente decepcionante a postura da mídia frente à tanta tragégia… estou aqui em Campinas a assistir as reportagens da Globo com repórteres felizes em conquistar mais uma resportagem que os gera taaaaanto IBOPE. A postura da ONU também é lamentável! Sobre a embaixada…e a embaixatriz, sem comentários! Enfim, não estudo na Unicamp, mas já vi algum de vocês lá…se cuidem e boa sorte!



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