Archive for janeiro \24\UTC 2010

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Paulo Dubois

24 de janeiro de 2010

Conheci Paulo Dubois quando de minha primeira ida a Porto Príncipe, em 1998. Naquela altura, seu escritório ficava na livraria Pleiade de Bel Air, no centro da capital. Em 2004, e como conseqüência da violência que tomara conta da região, a Pleiade de Bel Air se transferiu para outro bairro central da cidade, um pouco mais longe dos tiroteios que enfrentavam os chimères àqueles que se opunham ao governo de Aristide.

Logo encontrei em Paulo um bom amigo, e sempre que ia a Porto Príncipe passava horas na livraria Pleiade, atualizando minha biblioteca haitiana, conversando sobre a atualidade do país e respondendo suas questões sobre o Brasil. Sim, Paulo sempre foi um entusiasta do Brasil e da música brasileira. Em 1998, Paulo tinha um programa de rádio, na rádio Haiti, dedicado à música brasileira. Neste programa, Paulo me entrevistou, com muitas perguntas sobre MPB, sobre o Brasil… E não era só eu que, do alto da minha ignorância, respondia suas insistentes perguntas sobre MPB (eu, que não entendo nada de MPB!), mas sobretudo Paulo que me introduzia nos mistérios de um dos patrimônios musicais mais sofisticado das Américas, a música haitiana.

Foi Paulo quem me apresentou Jean Dominique, seu grande amigo e mentor. Seu assassinato, em abril de 2000, foi um duro golpe para Paulo Dubois, que interrompeu seu programa de rádio para não voltar a retomá-lo. Quando estive em Porto Príncipe em maio de 2000, encontrei um Paulo triste e deprimido. Recuperar-se da perda do amigo demoraria anos, e até hoje a evocação a Jean Dominique é constante.

Nos anos seguintes, sempre que retornava a Porto Príncipe, a ida à Pleiade era uma das primeiras visitas obrigatórias. Sempre que chegava, era recebido com doçura por Paulo e Solange, como um velho amigo. Em mais de uma ocasião saímos para conversar, dançar e tomar um bom rum barbankourt – no Press Café, no Oloffson. Todos os amigos brasileiros que comigo chegaram a Porto Príncipe transformaram a Pleiade num ponto obrigatório. A nova Pleiade, ainda próxima ao centro, possuía também um pequeno café ao lado, transformado em ponto de encontro. E no segundo andar uma pequena papelaria e preciosas estantes de música haitiana. Havia acabado de realizar uma bela compra de cds de música haitiana minutos antes do primeiro grande terremoto. A Pleiade tinha acabado de fechar, Paulo, Solange e os funcionários haviam acabado de sair, quando o terremoto nos surpreendeu diante da livraria, parte da qual veio abaixo.

Dois dias após o terremoto, passei pelo que restara da Pleiade, e lá encontrei Paulo e Solange. Haviam conseguido reunir boa parte dos livros e cds, e levá-los para a Pleiade de Pétionville, pouco afetada pelo sismo. Estavam sentados ao lado das ruínas, e me abraçaram com carinho. Quando voltar, ali onde estiver, irei à nova Pleiade que, com toda a certeza, Paulo vai reerguer em Porto Príncipe.

Omar Ribeiro Thomaz

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Jean Milus Rocheman está vivo !

20 de janeiro de 2010

Nosso grupo se sente mais aliviado com o e-mail de Jean Milus Rocheman, recebido antes de ontem à noite. Ele está vivo, mas vive como a maioria do povo haitiano nesse momento, segue seu e-mail;

“Oui, je suis bien.

(Sim, eu estou bem.)

quelque 1 hre de tempts avant le seisme j’ai recu la nouvelle de l’assassinat du professuer, un tres cher a moi, comme un coup de tonorre. peu de temps apres, c’etait la catastrophe.
(Uma hora antes do terremoto eu recebi a notícia do assassinato do professor, muito querido, como um golpe. pouco tempo depois, veio a catástrofe.)
Ma maison s’est effrondree. j’ai tout perdu, tout, tout, tout!!!!!!!. J’ai pu sauver ma peau, parce ce j’etais pas present. Mon neveu qui vivait avec moi depuis s’est sauve miraculeusement. Il etait gravement blesse, mais maintenant ,il commence a se reprendre. Sur 8 personne presente dans la maison, 3 sont mortes. a present, il n ya que des decombres. parler de aider, pour le moment me parait tres difficile, il n’y a pas d’edresse a port au prince
(Minha casa desabou. eu perdi tudo, tudo, tudo!!!!!! Eu pude salvar minha pele, porque eu não estava presente. Meu sobrinho que vivia comigo se salvou milagrosamente. Ele estava gravemente ferido, mas agora, ele começa a reagir. Das 8 pessoas presentes na casa, 3 estão mortas. até agora, só existem escombros. falar em ajudar, pelo momento me parece muito difícil, não existe mais endereços em Port-au-Prince.)
Mes besoins pour le moment sont surtout mes materiels de travail tels que : vetements, hebergement, car je suis actuellement dans rue, Tous mes livres sont disparus ( pres de 200 livres)
(Minhas necessidades pelo momento são sobretudo materiais de trabalho como: roupas, alojamento, porque eu estou atualmente na rua, todos meus livros sumiram, cerca de 200 livros.
mon lap top, ( j’etais entrain de prparer ma these a la faculte) chaussures,  etc,
meu lap top, (eu estava preparando minha tese para a faculdade) calçados, etc,
Donc, je vous presente en gros les besoins, vous choisirez en fonction de votre capacite.
Portanto, eu apresento a vocês de maneira geral minhas necessidades, escolham em função das suas capacidades.
D’ores et deja, je vous remercier pour votre offre, et votre clemence envers moi.
Desde já, eu vos agradeço pela oferta, e sua clemência para mim.
merci pour votre  soutien en moment si difficile.
(obrigado pelo apoio num momento tão difícil.)

salut!”

(Post inserido por Daniel F Q Santos)

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Haiti, que ajuda?

20 de janeiro de 2010

OMAR RIBEIRO THOMAZ
OTÁVIO CALEGARI JORGE
ESPECIAL PARA A FOLHA, EM PORTO PRÍNCIPE

O TERREMOTO no Haiti, que afetou de forma particularmente arrasadora sua capital, foi há cerca de uma semana. O pouco de um Estado já frágil foi destruído, a missão das Nações Unidas foi incapaz de ir além de resgatar seus próprios mortos e feridos, a ajuda internacional tarda, e o que vemos são haitianos ajudando haitianos.
Entre quarta-feira e sábado, caminhar pelas ruas do centro de Porto Príncipe e de Pétionville era observar o civismo dos haitianos que, muitas vezes, e como nós, sem entender claramente o que havia acontecido, procuravam cuidar dos feridos, resgatar aqueles que ainda estavam vivos sob os escombros, e dispor de seus mortos. O que vimos foi, de um lado, solidariedade, de outro a ausência quase que total e absoluta das forças da ONU e da ajuda internacional.
Por quê? Afinal, a Minustah não estava no Haiti há cerca de seis anos e não dizia estar agindo no sentido de estabilizar o país e reconstruir o Estado haitiano? Quando nos perguntávamos do porquê da demora de disponibilizar comida e remédios já no aeroporto de Porto Príncipe para as centenas de milhares de pessoas que se aglomeravam nos campos de refugiados improvisados por todos os lados, a resposta era que não existiam canais locais capazes de serem mobilizados para a tarefa.
Homens e mulheres que tinham vindo para ajudar, e as coisas que traziam, se aglomeravam num aeroporto controlado por forças militares americanas, como se de uma operação de guerra se tratasse.
Após seis anos no Haiti, aqueles que diziam que estavam ali para reconstruir o país, não tinham entendido nada, ou muito pouca coisa. Quando fomos às praças e campos de futebol transformados em campos de refugiados, eram as “dame sara”, mulheres que controlam as redes comerciais existentes no país, que garantiam o acesso dos haitianos a produtos; eram aquelas que cozinham na rua, “chein jambe”, que ofereciam galinha, espaguete, arroz, feijão e verduras aos haitianos e haitianas aglomerados; eram caminhões pertencentes a empresários locais que distribuíam água potável. Haitianos ajudando haitianos.
Por que não aproveitar esta energia e estas redes existentes para fazer chegar a ajuda? Por desconhecimento, talvez, ou talvez por duvidar de sua eficácia, ou da possibilidade de uma vítima ser mais do que uma vítima passiva à espera de ajuda.
O desconhecimento, no entanto, é duvidável. Em nossa visita ao batalhão brasileiro da Minustah, horas antes do terremoto, pudemos ver na apresentação do coronel João Bernardes um extremo conhecimento do funcionamento da sociedade haitiana. Infelizmente, a falta de ajuda parece estar mais ligada às disputas internacionais pelo controle do futuro do povo haitiano do que à emergência da situação.
Sim, os haitianos são vítimas, mas estão longe da passividade: pra cima e pra baixo, entre as “dame sara” e o “chein jambe”, vimos jovens escoteiros removendo entulho, jovens pedindo ajuda com alto-falantes, médicos haitianos dando atendimento aos feridos nas ruas, freiras haitianas prestando os primeiros socorros quando possível. Paralelamente, o aparato da Minustah, cerca de 5.500 militares de diferentes nacionalidades, ou estava parado, ou mobilizado na atenção dos próprios quadros da ONU.
Os haitianos ajudam haitianos, a ONU ajuda a ONU.

Culpas internacionais
Duas reações foram recorrentes nos dias que se seguiram aos terremotos. Uma, talvez a mais primária, era a de responsabilizar a natureza. A outra, a de responsabilizar os próprios haitianos pelo caos que sucedeu ao cataclismo. Afinal, foram incapazes de construir um Estado e, por isso, são incapazes de reagir.
Ambas as reações são perversas. Não estamos só diante de um cataclismo natural, mas também de uma catástrofe social. E o desmantelamento do Estado haitiano não é responsabilidade exclusiva dos haitianos, muito pelo contrário. País com pouca margem de manobra no contexto caribenho ao longo das décadas de Guerra Fria, viu as grandes potências apoiarem uma ditadura regressiva e particularmente violenta; concomitantemente, e especialmente a partir do fim dos anos 1970 e ao longo dos anos 1980, o Haiti, como tantos outros países, foi vítima de profissionais engravatados que aplicavam a mesma receita em qualquer lugar: desregulamentação, estado mínimo, livre comércio.
Foram as pressões do FMI e do Banco Mundial que obrigaram o Haiti a desproteger a produção de arroz no início dos anos 1980. O Haiti era, até então, autossuficiente em arroz.
Em pouco tempo não só se viu obrigado a importar este produto, como massas de camponeses foram expulsas do campo para a capital do país, aglomerando-se em habitações precárias, as mesmas que foram abaixo com o terremoto. Tal como ocorreu com o arroz, o cimento também foi afetado. Antes era produzido no país, e desde finais de 1980 foi importado dos EUA, o que obrigou os haitianos a fazerem uso de tijolos pobremente produzidos com areia. Tais tijolos são frágeis e acabam afetando a própria condição das construções. E podemos seguir adiante para demonstrar que o desmantelamento do Estado haitiano foi obra da “comunidade internacional”.
Somente uma crítica sistemática ao próprio caráter da ajuda internacional nas últimas décadas poderá ajudar o Haiti a sair de um atoleiro que não foi construído apenas por ele. O que pudemos observar, além da passividade da própria comunidade internacional, capaz de mobilizar mundos e fundos, mas incapaz de conversar com as “dame sara” para imaginar uma saída criativa para a distribuição da ajuda, foi um movimento mais do que preocupante.
Milhares de soldados americanos ocupam, mais uma vez, o país, como se houvesse uma situação de guerra civil, e o Brasil, já imerso há seis anos em toda essa lama, entra no circo das potências que querem “ajudar” o Haiti.
Sem termos presente o fato de que o Haiti é um país soberano, e que os haitianos não são vítimas passivas de catástrofes naturais, dificilmente sairemos do circulo de pobreza e miséria criada pela própria “comunidade internacional”, no qual o Brasil ocupa um trágico lugar central.

OMAR RIBEIRO THOMAZ, 44, é professor de antropologia da Unicamp; OTÁVIO CALEGARI JORGE , 21, é estudante de ciências sociais na mesma universidade.

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Novas notícias

20 de janeiro de 2010

Chegamos ao Brasil. Alguns de nós já se encontram com suas famílias e outros estão em Campinas.

Queremos agradecer imensamente àqueles que demonstraram preocupação e interesse na situação do grupo e mais ainda a nosso colegas e amigos haitianos e brasileiros que estiveram conosco nos dias após o desastre.

Apesar de termos chegado há pouco tempo, já estamos trabalhando em direção à consolidação de um novo site. A ideia é que proporcionemos, mais ainda, uma fonte de informação alternativa, acompanhando os acontecimentos no Haiti e em contato direto com intelectuais, amigos, acadêmicos e publicistas haitianos.

Outra iniciativa que pretendemos desenvolver já neste momento é de pensar, junto às universidades do Estado de São Paulo, medidas que facilitem a vinda de estudantes haitianos para estudar no Brasil, já que a principal universidade do Haiti veio a baixo e o esforço destes jovens haitianos é fundamental para a reconstrução do país.

Infelizmente, tivemos agora a notícia de um novo terremoto, de escala 6.0. Tivemos contato com alguns de nossos amigos, principalmente os que estão hospedados na casa do Viva Rio. A casa ainda está de pé e eles estão bem. No entanto, há muitas pessoas que ainda não conseguimos contatar.

O Haiti está vivo.

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E o futuro do Haiti?

18 de janeiro de 2010

E politicamente, o que acontecerá ao Haiti? Pode parecer preocupação excessiva pensar isso agora, mas não é… O Palácio e outros órgaos do Governo caíram. Não se têm mais todos os funcionários, os prédios, os equipamentos. O Senado veio abaixo justamente quando estava cheio. Um intelectual haitiano nos disse que tudo do Estado foi destruído e a burguesia (que sabemos, em geral, está por trás dos Estados) também foi.

As Forças Armadas e a Polícia do país não desapareceram “em meio ao caos provocado pelo terremoto”, como disse um repórter digital… As Forças Armadas não sumiram, foram desmanchadas no começo da década de 90, após decisão do presidente na época, Aristide. E a Polícia local é a única força armada que vimos nas ruas nos primeiros dias após o desastre.

As forças que a princípio sumiram aos olhos da população são as estrangeiras, que ocupam o país. Nesse sábado, andando de carro em vias relativamente livres, foi surpreendente ver dezenas de veículos da ONU parados no quartel do Brasil. Será que depois virá a comunidade internacional, resgatar o último sobrevivente, aparecer na mídia e dizer de boca cheia que ajudou o povo haitiano?

O que me assustou não é bem um “despreparo” da Minustah, como disseram por aí, mas a impressão de que há, ou houve, um desfoco, uma falta de prioridade. Os EUA estão há menos de 2h daqui, mas, pelo que vimos, demorou 4 dias para a ONU começar a lançar comida de helicópteros, o que obviamente reflete na afobação parcial da população para receber comida.

Parece que está se constatando publicamente o fracasso da Minustah (que está há 6 anos nesse Haiti) pois, realmente podemos ter dúvida do que ela deixou a esse povo: incentivo à bases, como agricultura e escolas, para o próprio país se reerguer, não foi…E agora, nessa hora emergencial, também tivemos dúvida da presença efetiva dela. Parece-me que a Minustah foi para o Haiti não apenas para oferecer comida, seguranca, etc, mas para inserir no país numa lógica que não essencialmente é a da ajuda, da prevenção e da estabilização. Tudo isso são apenas dúvidas que me farão reparar bem na intensificação do controle social que vai se instaurar e num número alto de mortos que pode existir mesmo depois do Haiti se recuperar. Hoje alguma autoridade já decretou que haverá toque de recolher, às 18h, como se fome tivesse horário pra vir e como se várias pessoas já não estivessem morando na rua.

Para além da ajuda, parece-me que se instaura muito mais fortemente uma lógica do capitalismo internacional, que aliás, é desigual e instável por si só. Quantas empresas e organizações internacionais não ganham muito no Haiti? Quantos dólares a mais elas não ganham ao trabalharem nas “zonas vermelhas” da cidade, consideradas assim pela ONU (mesmo quando são, no quesito violência, lugares comparáveis à diversas regiões do Brasil)? Tal lógica também esta presente em diversas outras “missões de paz”, em ajudas “humanitárias” pós-catástrofes, em políticas econômicas de países ricos em relação à países pobres e em desenvolvimento.

Os EUA estão mandando mais de 5 mil marines (dizem até 10 mil), obviamente muitos deles armados, dizendo que a reconstrução que buscam é a longo prazo… Também já têm o aeroporto em seu controle. Por que não priorizar 5 mil médicos, ou 5 mil litros de diesel, ou 5 mil quilos a mais de comida? Ou então 5 bi de dólares pra pagar uma fração do prejuízo que o fracasso do neoliberalismo, liderado pelos EUA, causou ao Haiti? Ou até para compensar o protecionismo de países desenvolvidos em relação a quem, economicamente, já está de guarda abaixada faz tempo?

Às vezes, penso que tantos mil soldados só podem vir pra cá para caçar, quem sabe grupos locais (os quais, onde não há presença do Estado, são naturalmente o poder existente). Pra quem quiser ajudar o Haiti, será que exise algo mais importante com que se gastar esses recursos do que investir na soberania alimentar, no combate à sede, à falta de moradia, etc, as quais já afetavam a esmagadora maioria da população antes do desastre? Desastre natural, aliás, que se agrava, na verdade, por conta de um desastre precedente, o social.

Num momento em que minha experiência no Haiti me mostrou que a natureza de muitas ocupações, “ajudas” e relações internacinais não me agradam, não posso estar otimista com o futuro politico do Haiti, apesar de acreditar muito no povo haitiano. Fico ainda mais preocupado sabendo que quem esta liderando tal movimentação é obviamente os EUA, o qual nas últimas décadas foi uma das “potências” que pressionaram infinitos países e exerceram muito dessa forma, eu diria, autoritária e doentia de se relacionar com o outro. Como disse Omar, qualquer valor monetário dado agora ao Haiti “humanitariamente” é pouco, e é, na verdade, o pagamento mínimo de uma dívida, que, ainda por cima, estão pagando de forma errada. E o Brasil parece não ter aprendido a lição que sofreu na própria pele: hoje é um dos protagonistas da intensifcação desses princípios perversos e que geram desigualdade. Aliás, já anunciou que ficará por aqui mais 5 anos.

Apoio-me nas palavras de um dominicano, que comentou algo como: “Disseram que o terremoto foi um castigo para o povo haitiano. Foi, na verdade, um castigo para aqueles que passaram séculos tratando-os com indiferença”. Pior, por mais que muitos haitianos gostem ainda hoje do Brasil (até porque quando qualquer um dá um prato de comida a alguém faminto não é muito dificil ganhar o mínimo da simpatia deste) não posso dizer que nós, brasileiros, não somos parte dessa patota de pessoas que devem ser responsabilizadas pelo que acontece no Haiti.

Werner Garbers

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Jean Milus Rocheman e Anil Saint Juste

17 de janeiro de 2010

Cem mil e um mortos no dia 12 de janeiro no Haiti, nunca me esquecerei, nem dos cem mil, nem deste um que se soma ao total.

Antes de ir ao Haiti eu tinha estabelecido contato com Jean Milus Rocheman, jovem militante haitiano que estudou na Escola Nacional Florestan Fernandes, escola de ensino superior do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), na cidade de Guararema, interior de SP, próximo a minha cidade, Jacareí.

Rocheman nos visitou duas vezes em Port-au-Prince e em entrevista nos explicou como a fabrica de cimento do Haiti tinha sido privatizada e destruída sistematicamente pelos EUA durante a ocupação estado-unidense. Por este motivo os haitianos pobres que não podiam importar cimento dos EUA construíam suas casas com tijolos de areia.

Impossível esquecer isso no dia do terremoto, vendo aquelas casas desabando como areia

Ele também nos falou sobre o processo de desinvestimento no campo por parte do Estado haitiano, que tornava o Haiti dependente dos EUA em diversos produtos alimentícios, e ocasionava um grande êxodo do campo para a cidade, em construçoes precárias, como vimos em Cite Soleil, que também foi em grande parte destruída durante o terremoto.

Este brilhante jovem haitiano também disse que a Minustah não é uma força de estabilização do Haiti, porque, afinal de contas, como falar em estabilização num país faminto? Como falar em estabilização sem fortalecimento das instituições haitianas? Portanto fica evidente que a Minustah estava no Haiti como força de ocupação, e que não tinha um plano para sair dali, ferindo a soberania do povo haitiano.

No final de sua visita Rocheman nos indicou Anil Saint Juste, professor da Universite d`Etat do Haiti, para falarmos sobre outras questões politicas, que poderia nos passar mais dados sobre a força de ocupação, Minustah.

Ligamos para o professor Anil e marcamos um encontro as 16h do dia 12 de janeiro de 2010. Eu mais dois do nosso grupo estávamos atrasados para o encontro, o trânsito estava caótico. A rua da universidade estava bloqueada, e dois pneus queimavam impedindo o tráfego de carros. Quando descemos do Tap-Tap as 17h, a cidade de Port-au-Prince foi atingida por um terremoto de 7.3 na escala Richter.

Depois descobrimos o possível motivo da manifestação estudantil, o professor Anil, militante engajado ligado aos sindicatos e movimentos sociais haitianos, foi baleado por dois motoqueiros e morreu as 13h naquele mesmo dia, dia do terremoto.

Por conta da manifestação estudantil nos atrasamos para o encontro e não estávamos no interior do prédio da universidade, que ruiu e matou mais de mil estudantes. Por conta da manifestação vários estudantes estavam na rua e se safaram.

Nunca me esquecerei do professor Anil, pesquisarei sua historia, lerei seus livros e teses. Anil Saint Juste, foi mais um morto em Port-au-Prince no dia do terremoto. Mas foi vitima da violência contra os movimentos sociais que cresce cada vez mais. E os outrtos cem mil, vitimas das construçoes de areia, da falta de um Estado forte, falta de um corpo de bombeiros, de hospitais. Me parece que as privatizaçoes e a falta de Estado não são um bom modelo.

Sempre direi, cem mil e um mortos no dia 12 de janeiro.

Até o presente momento não temos notícias de Jean Milus Rocheman. Ele morava num dos bairros mais destruídos pelo terremoto. Aguardamos ansiosamente notícias desse jovem militante haitiano e torcemos para que ele esteja vivo.

Daniel Felipe Quaresma dos Santos

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Carta a Port-au-Prince

17 de janeiro de 2010

Desde o terremoto, existe um canto que preenche as ruas. Na escuridão, os desabrigados compartilham tudo o que restou – um pouco de roupa, um resto de água, alguma comida. Do nosso lado do muro, com nossos colchões, um pouco mais de água, mais comida e muito mais roupas, éramos constantemente tocados pelo tom dos cânticos, palmas, e palavras que nos impressionavam, embora não conseguíssemos decifrá-las completamente. Em nossa última noite em Port-au-Prince abrimos o portão de casa e fomos convidados a compartilhar o canto, a dança, o sofrimento e a sorte de estarmos vivos com haitianos que, a partir de agora, vivem nas ruas. As pessoas não param. Os lamentos, em velocidade atroz, se convertem em energia para tocar suas vidas, refazer suas casas, reconstruir sua cidade. São generosas o suficiente para nos abraçar, mesmo sabendo que estamos em situação infinitamente mais confortável que a deles. E que, em breve, estaremos em terra firme, em casa. Eles estão lá, estarão lá, sempre estiveram lá. Deixamos, com grande tristeza, essa cidade que, dia a dia, por golpes fortes e certeiros, aprendemos a amar e respeitar… Esperamos voltar em breve.

Joanna da Hora e Marcos Rosa