h1

Haiti, que ajuda?

20 de janeiro de 2010

OMAR RIBEIRO THOMAZ
OTÁVIO CALEGARI JORGE
ESPECIAL PARA A FOLHA, EM PORTO PRÍNCIPE

O TERREMOTO no Haiti, que afetou de forma particularmente arrasadora sua capital, foi há cerca de uma semana. O pouco de um Estado já frágil foi destruído, a missão das Nações Unidas foi incapaz de ir além de resgatar seus próprios mortos e feridos, a ajuda internacional tarda, e o que vemos são haitianos ajudando haitianos.
Entre quarta-feira e sábado, caminhar pelas ruas do centro de Porto Príncipe e de Pétionville era observar o civismo dos haitianos que, muitas vezes, e como nós, sem entender claramente o que havia acontecido, procuravam cuidar dos feridos, resgatar aqueles que ainda estavam vivos sob os escombros, e dispor de seus mortos. O que vimos foi, de um lado, solidariedade, de outro a ausência quase que total e absoluta das forças da ONU e da ajuda internacional.
Por quê? Afinal, a Minustah não estava no Haiti há cerca de seis anos e não dizia estar agindo no sentido de estabilizar o país e reconstruir o Estado haitiano? Quando nos perguntávamos do porquê da demora de disponibilizar comida e remédios já no aeroporto de Porto Príncipe para as centenas de milhares de pessoas que se aglomeravam nos campos de refugiados improvisados por todos os lados, a resposta era que não existiam canais locais capazes de serem mobilizados para a tarefa.
Homens e mulheres que tinham vindo para ajudar, e as coisas que traziam, se aglomeravam num aeroporto controlado por forças militares americanas, como se de uma operação de guerra se tratasse.
Após seis anos no Haiti, aqueles que diziam que estavam ali para reconstruir o país, não tinham entendido nada, ou muito pouca coisa. Quando fomos às praças e campos de futebol transformados em campos de refugiados, eram as “dame sara”, mulheres que controlam as redes comerciais existentes no país, que garantiam o acesso dos haitianos a produtos; eram aquelas que cozinham na rua, “chein jambe”, que ofereciam galinha, espaguete, arroz, feijão e verduras aos haitianos e haitianas aglomerados; eram caminhões pertencentes a empresários locais que distribuíam água potável. Haitianos ajudando haitianos.
Por que não aproveitar esta energia e estas redes existentes para fazer chegar a ajuda? Por desconhecimento, talvez, ou talvez por duvidar de sua eficácia, ou da possibilidade de uma vítima ser mais do que uma vítima passiva à espera de ajuda.
O desconhecimento, no entanto, é duvidável. Em nossa visita ao batalhão brasileiro da Minustah, horas antes do terremoto, pudemos ver na apresentação do coronel João Bernardes um extremo conhecimento do funcionamento da sociedade haitiana. Infelizmente, a falta de ajuda parece estar mais ligada às disputas internacionais pelo controle do futuro do povo haitiano do que à emergência da situação.
Sim, os haitianos são vítimas, mas estão longe da passividade: pra cima e pra baixo, entre as “dame sara” e o “chein jambe”, vimos jovens escoteiros removendo entulho, jovens pedindo ajuda com alto-falantes, médicos haitianos dando atendimento aos feridos nas ruas, freiras haitianas prestando os primeiros socorros quando possível. Paralelamente, o aparato da Minustah, cerca de 5.500 militares de diferentes nacionalidades, ou estava parado, ou mobilizado na atenção dos próprios quadros da ONU.
Os haitianos ajudam haitianos, a ONU ajuda a ONU.

Culpas internacionais
Duas reações foram recorrentes nos dias que se seguiram aos terremotos. Uma, talvez a mais primária, era a de responsabilizar a natureza. A outra, a de responsabilizar os próprios haitianos pelo caos que sucedeu ao cataclismo. Afinal, foram incapazes de construir um Estado e, por isso, são incapazes de reagir.
Ambas as reações são perversas. Não estamos só diante de um cataclismo natural, mas também de uma catástrofe social. E o desmantelamento do Estado haitiano não é responsabilidade exclusiva dos haitianos, muito pelo contrário. País com pouca margem de manobra no contexto caribenho ao longo das décadas de Guerra Fria, viu as grandes potências apoiarem uma ditadura regressiva e particularmente violenta; concomitantemente, e especialmente a partir do fim dos anos 1970 e ao longo dos anos 1980, o Haiti, como tantos outros países, foi vítima de profissionais engravatados que aplicavam a mesma receita em qualquer lugar: desregulamentação, estado mínimo, livre comércio.
Foram as pressões do FMI e do Banco Mundial que obrigaram o Haiti a desproteger a produção de arroz no início dos anos 1980. O Haiti era, até então, autossuficiente em arroz.
Em pouco tempo não só se viu obrigado a importar este produto, como massas de camponeses foram expulsas do campo para a capital do país, aglomerando-se em habitações precárias, as mesmas que foram abaixo com o terremoto. Tal como ocorreu com o arroz, o cimento também foi afetado. Antes era produzido no país, e desde finais de 1980 foi importado dos EUA, o que obrigou os haitianos a fazerem uso de tijolos pobremente produzidos com areia. Tais tijolos são frágeis e acabam afetando a própria condição das construções. E podemos seguir adiante para demonstrar que o desmantelamento do Estado haitiano foi obra da “comunidade internacional”.
Somente uma crítica sistemática ao próprio caráter da ajuda internacional nas últimas décadas poderá ajudar o Haiti a sair de um atoleiro que não foi construído apenas por ele. O que pudemos observar, além da passividade da própria comunidade internacional, capaz de mobilizar mundos e fundos, mas incapaz de conversar com as “dame sara” para imaginar uma saída criativa para a distribuição da ajuda, foi um movimento mais do que preocupante.
Milhares de soldados americanos ocupam, mais uma vez, o país, como se houvesse uma situação de guerra civil, e o Brasil, já imerso há seis anos em toda essa lama, entra no circo das potências que querem “ajudar” o Haiti.
Sem termos presente o fato de que o Haiti é um país soberano, e que os haitianos não são vítimas passivas de catástrofes naturais, dificilmente sairemos do circulo de pobreza e miséria criada pela própria “comunidade internacional”, no qual o Brasil ocupa um trágico lugar central.

OMAR RIBEIRO THOMAZ, 44, é professor de antropologia da Unicamp; OTÁVIO CALEGARI JORGE , 21, é estudante de ciências sociais na mesma universidade.

Anúncios

34 comentários

  1. Obrigada, Omar e Otávio, por este texto informativo, esclarecedor e mostrando a situação a partir de um olhar de dentro. Que bom que a Folha de S.P. resolveu começar a divulgar “o outro lado da notícia”. Com um abraço carinhoso, Mariana.


    • Verdade..

      Sres.. Avisem quando sair o livro. Sei que farão com carinho e muito completo. Vou ajudar a divulga-lo para todos meus alunos como estou fazendo com o Blog. Precisamos urgentemente dessa informação sem o ranço da mídia podre!!


  2. O texto vai muito bem, até a parte das “culpas internacionais”… o tipo de raciocínio que vocês empregam é terrível…

    Pela mesma lógica, e retrocedendo mais no tempo, a responsabilidade dos fatos é toda dos revolucionários haitianos. Afinal, não tivessem expulsado os franceses, hoje eles viveriam em condições muito melhores (apesar de não ideais), como na Guiana Francesa, Reunião, Nova Caledônia… Com índices de desenvolvimento humano muito superiores ao do Brasil, e praticamente iguais ao de Cuba e Uruguai.

    Isso é idiota ? Claro que é… Assim como toda parte “culpas internacionais”


    • Que comentário esquisito o Dan acha que ser colonia é melhor que ser país..

      O Dan quer nos convencer que se o EUA não tivessem expulsados os Ingleses seriam uma colonia melhor, O mesmo da Europa e a ocupação Nazista, que o Brasil se deu mal ao romper com os Portugueses..

      O Dan não pensa antes de escrever.. ele é café com leite..


      • hehe pena que você não sabe ler… só dei um exemplo de raciocínio “lógico” idiota. Assim como o raciocínio IDIOTA de dizer que a culpa da tragédia é da comunidade internacional, só por causa de uns tijolos de areia e uns subsídios agrícolas.


      • Não se trata de “culpados pela tragédia”. Nem tão pouco, tijolos de areia e subsídios agrícolas são insignificantes para uma nação que vive em casas de areia e compra subsídios que não precisariam comprar, com um dinheiro que não chegou para eles, seu raciocínio lógico é óbvio, e me parece que foi exatamente isso que o artigo evitou, trata-se aqui caro Dan, da exploração de uma tragédia, a tragédia alheia, o famoso sensacionalismo, e como as grandes potências do mundo usufruem da necessidade de uns para promoverem sua generosidade e preocupação com o próximo, melhorando suas imagens e aumentando suas potências, perdendo menos tempo filmando soterramentos e mais tempo levantando pedra ajudaria os Haitianos.
        Sua casa não é de areia, é Dan?
        Quanto ao artigo: É bom se deparar com o verdadeiro jornalismo, a busca pela verdade… obrigado. E continuem por favor…
        Abraço a todos


  3. Olá,

    Eu sou uma amiga do Otávio e estudante da pós do IFCH. Tomei a liberdade de publicar o artigo de vocês no site do Coletivo de Comunicadores Populares. Já havia publicado aí outro texto publicado por Otávio neste bolg. Dêem uma olhada: http://www.camaracom.com.br/coletivo

    Se desejarem que eu retire o texto posso fazê-lo prontamente. Fiquem também a vontade para enviar para mim qualquer outro texto que produzam e que desejem divulgar amplamente. Posso facilmente publicar nesse sítio.

    Fico feliz que estejam bem e os felicito pelos textos e denúncias que tem escrito. Acho que vocês tem um papel importante a cumprir aqui no Brasil mobilizando as universidades em torno das questões que trouxeram a tona. Deveriamos organizar algum evento maior por aqui para que vocês façam pública e abertamente suas denúncias.

    Tenho plena concordância com os textos e me disponho a ajudar no que for necessário.

    Grande Abraço
    Ana Elisa Corrêa


  4. Parabéns pelo texto e pela criticidade, infelizmente tão escassa nesse momento.
    O maior terremoto que acontece há tempos no Haiti é o social. Esse fenômeno natural só o fez piorar. O povo haitiano é quem deve construir o seu futuro, a maior ajuda internacional nesse momento acredito que seria na reconstrução de escolas, e serviços de utilidade pública. Infelizmente sabemos como esse país é utilizado como laboratório de guerra e mão de obra barata pelo Brasil e EUA.
    O raciocínio do nosso colega acima é lamentável e atrasado. Submissão jamais resolverá o problema de ninguém.


  5. Caro Omar,

    Estou seguindo todas as notícias que você tem enviado. Um grande abraço,

    Lux Vidal


  6. É esclarecedor e, ao contrário do email acima, (do “Dan”), penso que seria muita prepotencia minha e de qualquer um tirar qualquer credito dos autores do Blog. Eles estão lá. E certamente não estão a passeio.
    O problema é histórico. O Haiti foi um “paradouro” de escravos que apos anos fizeram sua revoluçao, obviamente um povo sem estrutura intelectual para cuidar das suas proprias necessidades, mas com grande força de vontade. Dando sequencia ao raciocionio do Dan, O que a França fez apos perder o controle do pais? Caiu fora e lavou as mãos. Nunca se preocuparam com o que seria daquele povo. Poderiam ter “orientado” o “novo pais” que surgia inevitavelmente. Mas não, seguiram a eterna logica desgraçada de que cada povo tem que cuidar dos seus problemas, comon se cada pais ficasse fosse localizado em planetas diferentes. Quando vamos perceber que o mundo é um só?
    é isso..as coisas nao mudam e o Haiti está perdido..Que Deus não faça o mesmo com o resto do mundo.


    • Desculpe, Daniel e Camille (essa leu muito mal meu post, e nem vou retrucar).

      Pra começar, tudo é histórico. Existe alguma outra explicação que não seja histórica ? (a não ser que você acredite em Deus, aliás, parece assim).

      Gostei da descrição dos fatos pós-terremoto. Foi informativo. Achei ruim a análise feita a seguir, que quer apontar sempre os mesmos “culpados externos”, eterniza a condição de “vítima”, “le bon sauvage” e etc…

      Além do que, todos países do mundo são “vítimas de profissionais engravatados” (fora, desonrosas exceções – já estive no Myanmar e em Belarus – ainda “melhor” do que estado fraco e homens em gravata, são os homens em fardas e estado forte)…Culpar isso pelas tragédias do Haiti, é o mesmo que dizer que todos os desastres de avião tem como causa a gravidade.

      Bom, quando vocês marcarem um debate no IFCH, eu aparecerei. De internet, já foi demais.


      • É isso ai.. Na natureza os mais fortes e adaptados que tem a obrigação de sobreviver..

        Alguns humanos dizem que negamos a natureza ao tentar proteger os menos preparados..

        Tá tudo lá em “Mein Kampf”, livro de cabeceira do Dan..


      • não sei de onde vc tirou essa conclusão dos meus posts, mas de qq forma, o “Mein Kampf” deve ter sido mesmo o livro de cabeceira de minha família por gerações… Inclusive, deve repousar ao lado de todos meus parentes que foram parar em Jasenovac.


  7. ótimo(s) texto(s), Omar e Otávio!


  8. desculpe, não resisti … vocês tem que ler isso…

    “Pour Hugo Chavez, les Etats-Unis sont responsables du séisme”

    http://news.blog.lemonde.fr/2010/01/20/haiti-et-ses-amis-venezuelien-et-cubain/

    HAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHA !!!


    • Tá falando do HAARP..

      Vc acha que os EUA utilizariam uma tecnologia tão avançada como aquecedores ionisférios como arma de guerra?

      Claro que não.. afinal os EUA são Todos pela Paz e amor no mundo..

      Quem teria coragem de falar algo contra.. (eu tenho família.. eu não..)


      • Ionosféricos


      • Prezado Sr. Gaio Grimald,

        Para seu conhecimento, os americanos estao tambem treinando porquinhos-da-India para missoes de espionagem. Procure no Google o arquivo confidencial “G-Force”. Eh de arrepiar.


  9. Gostei muito do artigo:finalmente alguma coisa consistente em termos de história do povo haitiano e situação real da situação.Gostaria de entrevistá-los para uma matéria bem ampla e profunda sobre o assunto para o meu site: Oamar e Otávio.Seria possivel? moro em Campinas e meu email está ai.abraços.Ana Lúcia


  10. Alo meninos, logo descobri este blog, e já enviei um e-mail agradecendo a vocês. Eu tenho pensado sériamente em ajudar ao Haití, e penso qual seria a melhor forma e acho que aqui é um bom lugar para eu responder as minhas questoes. Ajudando a uma criança em seu país? Ajudando a criar uma criança haitiana em outro país? Eu posso sim criar e dar o meu amor a mais uma criança e sempre lembrando a esta criança sobre as suas raízes e seu povo, quem sabe um dia ela poderá retornar e ajudar a todos aqueles que ficaram lá na luta para sobreviver neste mundo tão perverso. Bom, está lançada mais esta reflexão para o mundo.
    obrigada. Maria


  11. É isso mesmo! Os milhões de dólares que estão sendo enviados irão parar nas mãos de quem? Não é um dos países mais corruptos do mundo? Aliás, país não, elite corrupta, pois o povo continua à míngua.
    O que o império e o neoliberalismo global não pode admitir é a existência de uma nova Cuba na região. Portanto a tal “Força de Paz”…E o terremoto veio como um excelente pretexto para a recolonização do Haiti. Vide o controle do aeroporto pelos EUA….
    Obrigada pelo texto, Omar. A gente estava carente desse tipo de informação.
    Um abraço
    Noemi


  12. Ótimo artigo.


  13. Prezado Omar, amigos da Unicamp,

    Pela primeira vez visito o blog, e gostaria de parabenizá-los pelo conteúdo. Bom seria que mais pessoas tivessem acesso a ele. O que passa no Haiti é exemplo do estado de espírito da humanidade, que ainda tem de caminhar muito para aprender a valorizar o que realmente deve ser valorizado nesta vida: o Ser Humano. Este é o capital mais valioso.

    Infelizmente vemos um Haiti que segue sendo fustigado, o que já vinha acontecendo, como podemos ler no artigo.

    Espero, sinceramente, que as coisas mudem, que haja uma mobilização efetiva para a reconstrução deste país; que não somente tratem as feridas e as cubram com curativos, pois um dia eles poderão cair e revelar uma situação ainda pior.

    Em fim, gostaria de parabenizá-los mais uma vez pelo trabalho e agradecer por dividir conosco o desejo de um Haiti forte.

    Fraternal Abraço.


  14. Valeu pelo texto!


  15. Para incrementar o debate, e responder especificamente a alguns posts, acho oportuna a leitura do texto “Os pecados do Haiti”, de Eduardo Galeano.

    In: http://www.resistir.info/galeano/haiti_18jan10.html

    Avani


  16. Ótimo texto! Fiquei feliz em ver que a Folha de SP teve interesse em publicar uma visão diferente dos fatos, descomprometida com a mídia viciada. Aproveito para fazer um comentário engraçado: recomendei a leitura do blog de vcs em algumas listas de discussões das quais participo e adivinhem? Agora recebo e-mails de fãs de milicos me chamando de “comunista de apartamento” e dizendo que sou uma apátrida por não achar nossos soldados e a MINUSTAH heróis. Há – não é, no mínimo, pitoresco?
    Abraços e continuem com o bom trabalho!


    • Nesse blog já me chamaram de fascista. Em outros, de comunista.

      Isso sim é pitoresco.


  17. Olá, gostei muito da matéria. Além de muito bem escrito, as idéias estão bem concatenada (redundância minha). De qualquer modo é muito bom salientar os estragos que a desregulamentação e o livre comércio são capazes de fazer, basta dar uma olhadinha rápida na lambança que a ENRON fez nos USA.

    O curioso é que tem gente que não vê as mazelas do neo-colonialismo, suas implicações sócio-econômicas e da lógica perversa que os move.

    Sugiro que as pessoas aqui assistam a um filme chamado “Queimada”, é do diretor Gillo Pontecorvo, e é estrelado por Marlon Brando. O filme fala sobre a ocupação das Antilhas. Muito bom.


  18. […] Haiti, que ajuda? (Pesquisadores da Unicamp no Haiti): artigo sobre a tragédia testemunhada pelos pesquisadores, e uma perspectiva histórica crítica sobre a situação do país. […]


  19. […] prometido, ao menos, chega a R$ 202 per capita. Na verdade, o verdadeiro auxílio por lá é dos haitianos ajudando haitianos. O que se vê no Haiti é ajuda nacional, ao invés de ajuda internacional. Dizem Omar Ribeiro […]


  20. querido Omar,
    fiquei muito feliz de vos saber bem, e gostei muito do seu artigo; é isso mesmo, e ainda bem que os jornais brasileiros estão a denunciar estas situações.
    Clara, de Lisboa


  21. Li o artigo de vcs, por indicação do Geraldo, q tbm estudou na Unicamp. Entendi q o maior número de pessoas precisam ter acesso ao blog de vcs, por isso recomendei a leitura através de uma lista de e-mails de amigos q tenho.
    Parabéns pela iniciativa, compromisso, sensatez e coragem em divulgar essas informações. Ciente q existem pessoas como vcs, sigo acreditando q a humanidade não está totalmente perdida… ainda há um caminho a percorrer!
    Grande abraço a todos!


  22. Srs,

    repasso, a seguir, texto que enviei aos meus contatos sobre o caso Haiti, e que gostaria de compartilhar com vc e seus leitores para este debate, e intitulado de: “Duzentos anos de solidão”

    Um abraço,

    Márcio Costa

    “Amigos e Amigas,

    a maioria já deve ter lido ou ouvido falar do grande romance e obra-prima de Gabriel Garcia Marques: “Cem Anos de Solidão”.

    Gabriel narra a incrível e triste história da família dos Buendia, na cidade fictícia de Macondo, desde sua fundação até sua sétima geração: “uma estirpe de solitários para a qual não será dada uma segunda oportunidade na vida sobre a terra”. Este romance foi considerado um marco da literatura latino-americana, a partir de seu lançamento em 1967, e considerado exemplo único do estilo, a partir de então denominado “Realismo Fantástico”.

    Mas o assunto principal aqui não é este grande livro, que recomendo aos que ainda não tiveram a oportunidade de lê-lo.

    O mesmo nos serve somente de mote para lembrar uma história real, não somente de uma família, mas de um povo inteiro e de seu país, que nos faz confundir ou não saber separar, como nada neste mundo, o que é “realidade” e o que é o “fantástico”, assim como Gabriel conseguiu na sua fusão feliz destas duas situações literárias.

    Um país que já passou por momentos de glória e prosperidade, quando servia de provedor de riquezas naturais e agrícolas, à base da exploração de 500 mil escravos africanos por 5 mil brancos, pela glamourosa e rica França, e objeto também de cobiças, disputas e guerras entre a mesma, os USA e a Espanha, nos século XVII e XVIII. Era considerada a “pérola” das Antilhas.

    Mas quando, a partir de uma revolução popular de escravos, conseguiu sua independência da França em 1804, começou o boicote pesado ao mesmo, pois não interessava à França de Napoleão fazer acordos com um país de ex-escravos. Sua força e prepotência seriam questionadas, apesar dos “ideais libertários” da revolução francesa. Aos USA, Espanha e demais países da América o Haiti era uma mau exemplo, pois seus governos e economias eram movidas à mão de obra escrava, e se este país desse certo, com esta revolução “negra”, o precedente perigoso estaria criado para novas revoltas e revoluções em todo continente americano.

    Então, os grandes países brancos e mercantilistas da época, partiram para a retaliação raivosa, através de um isolamento total ao Haiti, tentando sufocá-lo econômicamente, e levá-lo à miséria total e à capitulação humilhante.

    A capitulação não conseguiram, mas levá-los à miséria absoluta e desumana, isto sim foi uma vitória dos hoje “cristãos e grandes defensores das liberdades dos povos”, tudo sem nenhum sentimento de culpa e remorso, como se esta catástrofe humana fosse por causas naturais e/ou por indolência dos nativos negros.

    Sabem muito bem os “civilizados” que capital e trabalho são como irmãos siameses. Um sem o outro não permitem a prosperidade e o progresso. Por mais que o trabalho de um povo seja organizado e direcionado, é necessário o capital para acelerar o processo, não deixá-lo estagnar e impulsionar o desenvolvimento. Aliás, o capital nada mais é do que o trabalho e as riquezas naturais, acumulado à custa de muitos, mas na mão de poucos.

    Tivemos outros exemplos similares, no próprio Brasil escravocrata, com o Quilombo de Palmares e de seu líder Zumbi, que tinham que ser exterminados, a qualquer custo, pelos mesmos motivos do Haiti; e também outros países, e seus líderes, que se “atreveram” a tentar humanizar o modelo exploratório vigente, nas Américas, e nas próprias Antilhas, ao propuserem um novo modelo econômico e social, e que desafiava o sistema dominante.

    Aliás, este tipo de estratégia covarde persiste ainda hoje. Até há pouco tempo, através de boicotes econômicos, golpes e e invasões militares, quando algum “perigo” se avizinhava, ou hoje mesmo, através de meios mais discretos, como a cooptação da elite corrupta e o controle da mídia, da manipulação da informação, com a tentativa assim de se desvirtuar, difamar e desmoralizar os governos, e principalmente seus líderes, mais sociais, menos predatórios, mais independentes, e defensores da maioria de seu povo, mais pobre e vulnerável.

    Eles sabem que o círculo vicioso da miséria é impossível de se quebrar naturalmente, sem intervenção externa, tanto financeira, como estrutural, pois nesta situação as pessoas se preocupam, única e exclusivamente, com a sobrevivência diária, não tendo as mínimas condições materiais e psicológicas, e muito menos tempo, para se organizarem e progredirem.

    Assim também funciona nos vários “Haitis”, dentro do nosso Brasil, em que é necessário quebrar este círculo perverso. Isto começou a ser feito há poucos anos, com bons e rápidos resultados, e esperamos que assim continue cada vez mais forte e abrangente. É a única maneira de acabarmos com nossos vergonhosos “Haitis”: nas favelas, nas periferias, nas palafitas, nos sertões, e partirmos rápidamente para as próximas etapas de um progresso mais humanista, com um desenvolvimento econômico e social maior, e para todos.

    Embora uns poucos privilegiados ainda achem que isto é “esmola”, ou outras mesquinharias intelectuais do tipo. Duvidamos que se a grande maioria destes mesmos, na sua infância, tivessem como prioridade, máxima e única, lutar por um pedaço de pão todo dia, estariam hoje onde estão, do alto de suas “vitórias e riquezas acumuladas”, propagando regras elitistas, preconceitos, egoísmos e ódios contra os que tentam fazer alguma coisa para quebrar este círculo vicioso e perverso da miséria.

    Lembremos que este mesmos propagandistas da intolerância, são os que geralmente se dizem seguidores da filosofia cristã, vão às missas todos os domingos, e na época de Natal, fazem doações, ou mesmo dão esmolas, se emocionam com o sofrimento das crianças pobres, talvez para assim sentirem que lavaram suas consciências pesadas uma vez por ano, podendo depois partir novamente, e “livre de seus pecados enrustidos”, para mais um ano de combate rancoroso contra os mais fracos na escala social. Isto na maior “cara de pau”, e na maior incoerência filosófica e indiferença solidária, pois na verdade são cristãos, ou não?

    É como diria Gilberto Gil, em um trecho de sua grande composição Haiti:

    “E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
    E quando você for dar uma volta no Caribe
    E quando for trepar sem camisinha
    E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
    Pense no Haiti, reze pelo Haiti
    O Haiti é aqui
    O Haiti não é aqui.”

    Na verdade, enquanto a família Buendia foi submetida a cem anos de solidão emocional, e a qual não foi dada uma segunda oportunidade, como tão bem descreve Garcia Marques, o povo do Haiti foi submetido à duzentos anos de solidão, emocional e material, retirado à força de sua mãe África, e condenado à miséria eterna, pela sede da liberdade e a audácia da independência negra. E nos parece, que ao Haiti uma nova oportunidade não será dada, não somente por sete gerações, como os Buendia, mas pela eternidade.

    Vejam, neste link abaixo, neste vídeo emocionante, a carência emocional do sofrido povo haitiano, submetido a duzentos anos de esquecimento e desprezo, e que teve neste dia, de alegria contagiante, uma vã esperança que o mundo não os tinha completamente esquecido, e que faziam parte ainda da raça humana:

    O que nos espanta, no caso do Haiti, não é a ação humana sobre a desgraça deste povo, pois todos sabemos que o homem é o maior predador do próprio homem, e que o egoísmo e a ganância ainda prevalecem sobre a solidariedade e a cooperação.

    O que nos surpreende é que nos parece que a ação da natureza, ou mesmo a divina, como os mais crentes preferirem, parecem conspirar, em conjunto com a humana, para castigar duramente e eternamente este povo tão sofrido e humilhado.

    Na magnífica charge do Ênio, link mais abaixo, o povo hatiano crucificado na infindável infelicidade, parece gritar desesperado um dos versos do grande poeta brasileiro Castro Alves, do cada vez mais atual poema “Vozes da África”:

    “Ó Deus! onde estàs que não respondes?
    Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
    Embuçado nos cèus?
    Há dois mil anos te mandei meu grito,
    Que embalde desde então corre o infinito…
    Onde estàs, Senhor Deus?… ”

    – Charge do Ênio sobre o Haiti: http://pincel-photos.blogspot.com/2010/01/charge-do-enio.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+Photografia+%28Photografia%29

    As fotos e imagens trágicas do terremoto em Porto Prínicipe, que percorrrem o mundo, parecem confirmar os versos de Castro Alves e a charge do Enio, em toda sua contudência e crueldade inimagináveis, e como bem escreveu Garcia Marques: a realidade e o fantástico se confundem como nunca.

    Quisera agora, que o grito agonizante deste “Cristo negro”, simbolizado nesta charge magnífica, seja desta vez ouvido, não somente para amenizar desgraças agudas e passageiras, por maiores que sejam, mas principalmente para findar com este sofrimento crônico e secular, e que envergonha a humanidade”


  23. Gostaria de parabenizar pelo excelente artigo. Coisa que a gente não tem acesso na mídia burguesa.saudações revolucionarias.



Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: