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Haitis

15 de janeiro de 2010

As impressões que tivemos dos haitianos que conhecemos até hoje, tanto dos que conhecemos de forma mais próxima (caseiros, funcionários, motoristas, etc) quanto os de conversas mais rápidas (entrevistados, vendedores e pessoas que sempre estão pelas ruas, amigos de conhecidos nossos etc.), são de que fazem parte de um povo criativo e que, mais do que se supõe, conhecem seus heróis nacionais como se estes estivessem vivos. Povo que foi e é subestimado e mal compreendido (assim como os pobres em geral são) e que foi e é omitido e deturpado na história oficial dos livros e na mídia. Povo que é forte, que está sempre em movimento, se virando, que é corajoso – não sei se por sentir que não tem o que perder, dado que seu orgulho e sua História ninguém lhes tira.

Como esquecer que foi o segundo país da América, não por acaso, a conquistar a Independência e o primeiro a conquistar o fim da escravidão (mais 15 e 100 anos antes do Brasil, respectivamente)? Como esquecer que é um país pequeno geograficamente, mas solidário, que enviou apoio à Independência Cubana, às transformações por soberania no Congo e na Grécia (já em 1830), e em outros momentos importantes?

Mas há muitas imagens de Haitis que historicamente se criaram e se criam por aí. Para mim,  muitos desses aspectos positivos apenas se explicitaram e se intensificaram com o desastre… Um dos mais impressionantes, como já disseram, foi o chen jambe (espécie de marmitex na rua) que não teve aumento de preços, o que nos mostra como o interesse alí não é abusar da desgraça para explorar o próximo. Até os saques que aconteceram parecem se justificar no fato do total abandono da população e no fato de que se os alimentos forem logo consumidos garantirão a sobrevivência da maioria até chegar ajuda.

Mesmo com a ocupação de anos da ONU aqui, ainda não se investiu em áreas essenciais e não imediatistas, como educação e soberania alimentar dessa população, o que os ajudaria a se reerguer de sua pobreza cotidiana e com suas próprias forças.

Não sabemos onde estão, nesses dois primeiros dias logo após o desastre, enquanto ainda deve haver vítimas vivas e os corpos estão nas ruas, os mais de dez mil soldados da ONU que já estavam permanentemente no país. Apenas tivemos informações de pessoas que viram alguns deles em Pétion Ville, cidade de padrão mais alto, ao lado Porto Príncipe.

Um grande intérprete do país, Louis Marcelin, com o qual conversamos antes do terremoto, nos disse que a população daqui foi acostumada a não ter onde morar. Naturalmente pensei nos escravos sendo trazidos à força a essa ilha, a qual, aliás, sempre foi também um espaço de passagem nas rotas marítimas, além de ter sido a colônia mais rica da França. Pensei nas diversas pessoas que aqui nos disseram que o que sempre faziam era andar em busca de algo, de fazer bico, atrás de comida, de arrumar trocados em lugares já superlotados de outros transeuntes semelhantes. Louis Marcelin comentou que quando se mora, aprende-se algumas coisas sobre o gerir seu próprio espaço, o que, em termos de Estado, também não foi possível no Haiti colônia e nem durante as seguidas ocupações (EUA, de 1915 a 1934 e depois a da ONU no final do século XX). O povo aqui realmente se acostumou a lutar para sobreviver e auto-organizar-se bem antes desse último desastre… e enquanto isso, por mais de uma vez, enquanto invadiam esse país, estrangeiros achavam que tinham tal população sobre controle e que esta não teria capacidade para se governar.

Louis Marcelin fez algumas perguntas para pensarmos: num país onde você precisa se dissociar (de ocupantes) para existir, o que é morar? O que é morar num país onde você precisa se aglomerar só pra existir? Como ter individualidade?

É óbvio que esse povo é forte e convive com as tragédias (povo que hoje mesmo já vimos começar, sozinho, do seu modo, a se reerguer). Dentro de seus limites, eles têm feito o máximo. A questão que historicamente se coloca aqui é a respeito de quem vem de fora e que idéia traz (geralmente a de subestimá-los e apenas culpá-los por sua pobreza, quando não de explorá-los), e isso, hoje, pode se dar numa simples foto inoportuna ou que só se volte ao sensacionalismo.

Se quiserem realmente ajudar precisamos que fiquem preocupados definitivamente não com os brasileiros que estão aqui, mas com o povo haitiano. Nós retornaremos e veremos nossos familiares e amigos, e não teremos preocupação com comida, água, moradia… .muitos haitianos, não. Aqui no Haiti vemos quanto o capitalismo e a economia hoje nos tornam completamente interligados e que, tão pertinho daqui, para Miami poder existir (ou a nova bola da vez, o Brasil, “em desenvolvimento”) foram necessários muitos Haitis por aí…

Werner Garbers

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19 comentários

  1. Na tv passa que ainda não sabem o que fazer com todos os donativos que receberam. Estão precisando fazer uma logística do ambiente para entregá-los. É muito dinheiro, é muita comida… Tudo ainda guardado. O tempo passa, mas HAITI prova que tudo acontece quando o povo se junta pra começar algo. De fato, não aconteceria por aqui tamanha ORDEM para o PROGRESSO, pois pelo menos aqui no RJ já acontece a guerra civil, a calamidade, o terremoto de traficantes, policiais corruptos, milícias estourando a paz TODOS OS DIAS e o povo não se junta, o povo só vota, e quando vota…

    Haiti é um povo forte, e com esse blog penso mais, e nós?


  2. Obrigado por suas impressões sobre o povo haitiano. Bela relembrança da Independência e luta pelo fim da escravidão…
    Os saques – justificados.
    Ajuda internacional – espera-se que bem gerida.
    Não aproveitar-se da desgraça e mantendo-se os mesmo preços nos alimentos “chen jambe” anteriores ao terremoto – éticos.
    Boas questões e análises nos parágrafos finais.


  3. Pessoal, vocês não têm ideia da importância dos vossos textos sobre o Haití de hoje. Quem dera que todos os haitianos os pudessem ler, e ter mais orgulho da sua bela História. Certamente, Alejo Carpentier, o mesmo que escreveu El reino de este mundo, iria se babar de ter (re)descoberto a sua América a partir do Haití, e reescreveria esse romance com aportes das vossas crónicas. Força, pessoal! Estamos juntos.


  4. Quem dera o povo haitiano soubesse desses textos, e da importância que eles estão representando para vcs. Força sempre e unidos no que podem fazer por eles no momento.Sem vcs não sei o que seria de nós aqui no Brasil, lendo somente um lado da mídia. Graças a vcs, consigo pensar DIFERENTE.
    Pensamentos positivos é o que eu posso desejar no momento.
    Beijos.


  5. Professor
    sua explanação mostra um Haiti que não foi pintado para vermos, e, por isso, agradeço pela abertura de olhos. Acho, entretanto, que a frase que mais bateu em mim foi a que abre o último parágrafo. Realmente, daqui, a mídia está abordando muito mais nosso sofrimento individual, contrapondo-o a uma tragédia de um grupo sem rosto.. tenho contato com haitianos aqui no Brasil que não conseguem localizar seus parentes aí… e parece que ficaram em segundo plano no que diz respeito a descobrir o que ocorreu com os oficiais brasileiros. Triste… mas real.


  6. Que povo heróico! Realmente eles estão recomeçando sozinhos, mas apesar de tamanha tragédia continuam fortes. Acompanhando os relatos desse blog, percebemos o tamanho da pobreza (me refiro à pior pobreza que existe, que é a pobreza de espírito, de solidariedade e de humanidade) que estamos cansados de ver partindo de governantes para com os mais necessitados. E dessa vez não está sendo diferente, pois a ajuda está sendo direcionada primeiramente à Pétion Ville, cidade de padrão mais alto. Isso é lamentável. Ainda bem que podemos contar com o Blog de vocês que são fontes verdadeiras. Parabéns pelo trabalho e cuidem-se. Espero que o povo Haitiano continue forte e realmente receba a ajuda de que tando necessita. Estou rezando muito por todos!!!


  7. Escrevo apenas para registrar meu elogio a qualidade da informação que este blogue está trazendo sobre o Haiti. Parabéns a todos e força em seu trabalho!


  8. Li vários comentários de outros posts e tirei as seguintes conclusões:

    1) Pede-se que vocês façam denúncias comprovando-as: Estes querem o quê? Que nove pessoas salvem um sistema político e internacional comprometido em falcatruas construídas durante anos? É esse o “dever” de vocês? Minhas indagações, no entanto, não são levianas a ponto de achar que dados não devam ser concretos, comprovados com fotos. Há de se apurar, quantificar, colocar aspas, indicar fontes… Essa pode ser uma oportunidade de aprofundar a crítica e dar subsídios reais para o que se escreve. Mas não sei se é lícito cobrar isso e se este momento pode passar a ser incluso nos objetivos do grupo.

    2) É claro que a ajuda da ONU (incluindo a brasileira) deve estar por aí fazendo algo. Mas efetivamente o quê? Onde? Quando? (quando uma câmera de TV é ligada?) Com que intensidade? Em quais locais? (apenas em cidades + desenvolvidas?)

    3) Vi muita gente pedindo para que vcs coloquem a mão na massa, questionando o que vcs tem feito. Enquanto pesquisadores, será que esses relatos já não são documentos interessantes e importantes para ligar o pisca alerta das pessoas, dos intelectualizados, dos que acham que sabem algo ou que fazem algo por detrás de seus PCs e sentados em suas cadeiras confortáveis?

    Enfim, tinha muito a dizer (escrever)…mas o falar em demasia enfada.

    Marcos Masini
    http://www.pugnus.com.br
    http://jornalistamasini.wordpress.com


    • Ótimo.


    • Verdade. Vou ficar de olho neste 9 Cientistas Sociais, certamenta jamais esquecerão o que passaram, poderão revolucionar muitas coisas.


      • Poderiam começar a “revolução” ajudando de forma prática.
        Ponham a mão na massa!
        Por que não vão visitar o Brabatt? Vocês têm medo de reconhecer o trabalho desempenhado por eles?
        Lamento por “cientistas políticos” que já saem da sala de aula para o trabalho de campo com as idéias prontas.
        Vão ao campo para colher dados que confirmam seus preconceitos.
        Vocês são Patéticos!


      • Você sabe o que é antroplogia? ou ainda, etnologia, que é o que esse grupo foi fazer?
        Parece que não.


  9. Rapazes , esses relatos são a realidade pura .
    O que escutamos na midia é outra visaõ .
    Parabéns , voces conseguiram enxergar o povo do Haiti . Voces conseguiram enxergar o verdadeiro haitiano .
    Que Deus abençoe esse povo que merece ter sua propria identidade garantida .
    Vergonha , para os paises europeus e as grandes potencias …. que no final so fazem aquilo que lhes trará alguma vantagem economica ou publicitaria .


  10. Concordo plenamente com o que disse. É isso mesmo, sem tirar nem por. Principalmente o final. Não temos que nos preocupar com os brasileiros que estão aí. E sim, com o povo haitiano que continuará aí. Fiquei chocada ao ver o Obama dizer que ‘sente muito mas a prioridade é salvar os americanos primeiro’ e depois dessa tirei minha conclusão de que ele não merece a cor que leva estampada em seu corpo e que é sim, um grandissíssimo filho da puta.
    beijo.


  11. Parabéns pelo blog e pelas informações.
    É impressionante a capacidade desse povo… enquanto isso no Brasil continuam reproduzindo a imaginação dos “bárbaros”, o perigo das ruas, a guerra de todos contra todos, etc.
    Acho que a embaixatriz brasileira e o cônsul haitiano poderiam marcar uma visitinha lá no Afeganistão e no Iraque…
    Boa sorte para vocês aí no Haiti


  12. fico grata por receber relatos diretos de quem não está comprometido com midias, “políticas humanitárias”,”intervencionistas”, etc
    Há alguns anos tive o privilégio de assistir a um video, por um canal de TV Cultura, onde tive a felicidade de conhecer uma História do POVO HAITIANO, em luta contra o exercito francês… Com sua RELIGIÃO (principalmente seus cânticos que eram SUA FORMA DE COMUNICAÇÃO), seus ritos, seus mitos, sua fôrça mental, conseguiram apavorar os militares, que CONSIDERAVAM AQUELES PODERES SOBRENATURAIS . E o povo haitiano conseguiu vencer aquela guerra desigual.
    Pra mim, seria um sonho poder rever esse material. Infelizmente não tenho a menor chance… Quem sabe, VOCÊS? PS. escrevo de belo horizonte, MG , sempre escandalizada com a destruição, não só causada pelo GRANDE TERREMOTO, mas pela destruição de um povo : seus mitos, seus ritos, suas crenças ,sua FECUNDIDADE!


  13. Nada como o contato com quem está aí. Seus relatos mostram aspectos até então desconhecidos do povo haitiano. Infelizmente a cobertura jornalística aqui é um tanto espetaculosa, com cenas comoventes e tristes ao mesmo tempo. Além dos pedidos de doações (que são importantes, é claro!), nada de reflexão sobre os reais motivos que levaram o Haiti e vários outros países do mundo a essa situação: a má distribuição de renda e a mortal exploração capitalista desses povos. É mais fácil culpar o terremoto e a falta de cultura (capitalista) do que encarar que a culpa de tudo isso tem nome, não é algo abstrato, inatingível. Infelizmente poucos estão lúcidos o suficiente para perceber que o o ser humano não se resume a trabalhador exemplar e consumidor voraz. Obrigado pela oportunidade de conhecer um pouco do povo hatiano.


  14. Excelente iniciativa sua de apresentar ao nosso olhar a força desse povo, que resiste – apesar de tudo e de todos (que apenas condescendem com a atitude imperialista de enviar sobretudo contingente militar, numa ocupação sempre com previsão de início, mas jamais de fim). E quando há uma previsão de fim para a invasão militar, é quase sempre mentirosa e impontual.


  15. Parábens pelo artigo Werner, muito boa as relações que vc fez.
    Abraço t+



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