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Guy Dallemand

15 de janeiro de 2010

Em novembro de 1998, vim ao Haiti pela primeira vez. Meu amigo Jean Phillipe Belleau me pegou no aeroporto e me levou diretamente a casa de Guy Dellemand, professor de sociologia e antropologia da Université d´État. Fiquei encantado com sua sabedoria, sua erudição, seu senso de humor, sua hospitalidade. Desde então, Guy transformou-se numa figura central para mim em Porto Príncipe, ao lado de outros tantos amigos haitianos, que me revelaram facetas fascinantes deste país e de suas gentes.

Em viagens posteriores, mais de uma vez, fiquei hospedado na casa de Guy Dallemand. Sempre me encantou sua casa: um dos belos casarões de Porto Príncipe, daqueles de madeira e ferro que dominaram a arquitetura da capital entre fins do século XIX e primeiras décadas do XX. As grandes portas abertas para um jardim que da a Ruelle Roy, assim como a varanda do quarto onde sempre me hospedei, no primeiro andar; uma mesa de jantar num terraço que dava para o jardim, e a cozinha aberta para o quintal. Grandes janelas, sombra, boa circulação de ar. As paredes com belos quadros haitianos, as estantes com livros preciosos. Antenor Firmin, Thomas Madiou, Jean Price-Mars… conversei sobre eles com Guy, assim como sobre L´Ouverture, Dessalines, Cristoph. Com Guy entendi a imensa frustração dos líderes haitianos ao longo do século XIX.

Logo que cheguei a Porto Príncipe semana passada, levei minha equipe para conhece-lo. Queria rever meu amigo, ver sua casa, e apresentá-lo aos membros de minha equipe que deveriam ter a oportunidade preciosa de escutá-lo. Quando chegamos, Guy lia seu jornal na varanda, e nos recebeu com alegria e carinho. Nos sentamos a sua volta, e ele nos contou da construção da casa, da vinda de sua família de Les Cayes para Porto Príncipe. Nos falou ainda de sua mãe, primeira feminista haitiana, de sua militância no associação ilegal de estudantes da universidade nos anos 1950, de sua ida a Moscou com salvo conduto assinado por Jean Price-Mars, de seu encontro com François Duvalier, de sua vida como exilado na Argentina, de sua ida ao Zimbábue quando da independência deste país…

O terremoto foi na terça feira por volta das 17:00h. Desde então não tinha notícias de Guy. Passei o dia inteiro de ontem angustiado, pensando nele e nos meus outros amigos. Hoje quando saímos, fomos em direção ao centro a pé. No caminho da casa de Guy tivemos mais profundamente o impacto da devastação: mortos dispostos pelas calçadas ou ainda em meio a escombros, feridos à espera de auxílio, solidariedade nas ruas, pessoas que vão e vem. A alimentação de todos é garantida pelas senhoras que controlam o comércio informal, as dam sara, e por aquelas que controlam as cozinhas de rua, o chein jambe.

Na esquina da Ruelle Roy, uma mulher morta estava no topo de um prédio ruído. Estava ali desde terça-feira, como tantos outros. Descendo a rua, vimos o belo Centre d´Art, referência para a arte haitiana, centro propulsor de uma verdadeira revolução artística, possuidor de uma coleção absolutamente extraordinária, destruído. Alguns quadros podem ser vistos da rua, nas poucas paredes que restaram; os outros se confundem com entulho. Continuamos descendo, e quando a chego a casa de Guy o cenário de destruição se repete. Como tantas outras belas casas, estava parcialmente destruída. O quarto onde dormia não existia mais. Angustiado, perguntei às pessoas da rua sobre Guy Dallemand, se estava vivo, e me confirmaram que estava vivo e bem. Disseram para ir pela parte de trás, que o encontraria no quintal. Alívio: lá estava Guy Dallemand, sozinho, sentado de pijama no quintal de sua bela casa destruída. Nos recebeu com alegria, e fez questão de pegar bancos para que nos sentássemos em seu quintal, eu, Cris, Rodrigo, e Flávio, professor de capoeira do Viva Rio. Falamos da catástrofe que se abateu sobre o Haiti, e suas conseqüências, sobre a impossibilidade de reconstruir sua casa, e sobre seu futuro incerto como professor à beira da aposentadoria pela Université d´État. Deverá buscar ajuda de sua família, irmãos e sobrinhos. Seu filho vive na República Dominicana, e Guy não havia conseguido entrar em contato com ele ainda. Logo me dispus a enviar-lhe um email, comunicando que estava bem. Após esta etapa da conversa, passamos a outra: política nacional e, por fim, e antes de partirmos, Guy foi dentro de sua casa procurar o nome de uma palavra em português que ele desconhecia. A palavra era “roteiro”. Nos despedimos. Amanhã, e depois, e enquanto estiver aqui, visitarei Guy todos os dias.

Omar Ribeiro Thomaz

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34 comentários

  1. olá omar, estou acompanhando o trabalho de vocês, o blog está muito interessante e bem escrito. continuem escrevendo!

    beijos.


  2. Ufa, que alívio ler no final que Guy está vivo!
    Não consigo imaginar o tamanho da dor que Guy, e todos os outros Hatianos estão sentindo… Só Deus mesmo pra poder confortar a todos e ajudarem a passarem essa fase cruel… Que Deus proteja vcs aí! abs


  3. Omar, este blogue tem sido a única fonte de informação verdadeiramente confiável sobre o Haiti que encontrei. Em que outro lugar haveria um relato cotidiano tão real sobre um acadêmico importante do país e não apenas destruição, caos e fotos de pessoas pisando em cadáveres? Realmente os jornais só estão pintando o sangue, não daria para imaginar a rede de solidariedade dos próprios haitianos que se formou (ou já existia). Nem tampouco do descaso para com este povo por parte da Minustah.
    Fico orgulhoso de que brasileiros como vocês estejam no Haiti neste momento crítico e não apenas militares. Força a todos!


  4. Omar, nos aqui só temos que te agradecer pelo incentivo, apoio e coragem que estão nos passamos de forma indireta.Esse trabalho de vcs, só me faz pensar uma coisa: Que o que pensam e sentem a respeito do mundo é completamente diferente daquilo que estamos acostumados e doutrinados a sermos, os textos postados por todos vocês estão muito acima de nossa sensibilidade a respeito do mundo…Durmo pensando em vcs e acordo pensando em vcs.Condolências aos haitianos é o que eu posso desejar nesse momento.
    Abraços.


    • erro: que estão nos passando


  5. Omar, agradeço a vocês pelos textos deste blog, principalmente porque nos mostram e nos trazem informações bem fundamentadas e claras sobre o Haiti, bastante diferentes desse sensacionalismo barato com o qual a mídia internacional cisma em nos “brindar”. Muita força para todos vocês e, principalmente, para o povo haitiano nesse momento. Estou divulgando o blog para todos os meus conhecidos.


  6. Informações importantes dadas por pessoas que estão vivenciando e registrando a dor de um povo e seu extraordinário espírito colaboracionista determinado em soerguer seu país,estou sempre visitando estas páginas , informes preciosos dados por esses reporteres do cotidiano.


  7. Omar, sou Fátima Oliveira, médica de Belo Horizonte. Trabalhamos juntos no Cebrap (SP). Foi com muita emoção que encontrei o blog. Uma felicidade enorme saber que está bem.


  8. Omar, desde ontem tomei conhecimento deste blog porque estou muito triste e ansiosa para saber notícias daí. E adorei obtê-las através de vocês porque são reais e sem o sensacionalismo mórbido das reportagens que encontro nos jornais. Fiquei muito feliz em saber que seu amigo conseguiu sobreviver a essa tragédia e me preocupa imensamente em como os haitianos vão viver nesses próximos dias . Abraços aos seu amigos e por favor se cuidem muito.


  9. Condolências ao povo haitiano.
    Obrigada pelos relatos.


  10. parabéns pela sensibilidade do seu relato e boa sorte para vocês.


  11. Omar, depois que soube do seu blog, é aqui que busco notícias do Haiti, que só chegam às TVs brasileiras na base do sensacionalismo piegas. Seus textos, pungentes, objetivos e sinceros, nos deixam pensando a respeito do que o ser humano é capaz de fazer. Saber que os haitianos estão praticamentes entregues à própria sorte até agora, enquanto poucos ricos e estrangeiros recebem tratamento diferenciado, me envergonha.
    Não sei nem como me despedir…
    Abs,
    Leonor.


  12. Pessoal vocês viram as declaraçoes do consul (branco) do Haiti no Brasil, numa entrevista na uol ? Vejam aqui : http://bit.ly/5Kt5mh

    Resumindo: ele disse que africano é amaldiçoado e que isso tinha acontecido de tanto que os haitianos faziam “macumba”.

    Por favor divulguem esse horror, esse senhor tem que sair do Brasil e ir fazer trabalhos forçados em alguma prisao na Sibéria.

    Força pra vocês e obrigada por nos darem uma visao lucida e critica da situaçao.


  13. Estou recomendando o blog a todos. É bom ter notícias reais, desprovidas do sensacionalismo idiotizante da TV. Ainda bem que vocês seguem com acesso à internet.

    Num momento desses é difícil ter calma e discernimento sobre o papel de cada um. Os jornais dizem que as estradas estão destruídas e dificultam a chegada das doações e das equipes médicas. Também dizem que o espaço aéreo do Haiti está saturado e os poucos aeroportos não têm sido o suficiente para receber os aviões com a ajuda humanitária.

    É bom saber que os haitianos estão se solidarizando. Isso é o mais importante num momento como este. Daqui do Brasil, também tem gente que se solidariza com os haitianos. Não conheço brasileiro nenhum aí. Já conheci um haitiano e sempre admirei esse povo por extensão da simpatia dele. Torço para que a população e o país se recuperem. Da minha parte, faço o que posso. Doação em dinheiro e divulgação do blog de vocês. E sei que não sou a única.

    Força, Haiti!


  14. Omar
    fiquei preocupada com vocês aí, mas passei a ler seu blog com os impressionantes relatos sobre o Haiti e a situação atual.
    Força e continuem dando notícias e relatos!
    abração
    Con (Pagu)


  15. Je ne parle pas espagnol; je suis francaise vivant aus USA. Je cherche a contacter monsieur Guy Dallemand. Si vous avez des renseignements, pourriez-vous me les faire parvenir. Merci


  16. Tenho lido o blog constantemente, e tenho recomendado a todos por aqui também para que possam ler relatos humanos e diferentes da palhaçada que se dá na dita grande midia.

    Força pra vocês e para o povo Haitiano.


  17. Obrigada por mostrar ao mundo que no Haiti existem intelectuais , artistas , homens letrados etc…
    A midia sempre faz questão de mostrar a ignorancia deste povo .
    Eles tem historia , cultura , religião e devem preserva-las como seu patrimonio de vida de uma nação .


  18. Omar, força, querido, estamos com todos vcs!


  19. Omar,
    gostei muito de seu texto na Folha e, agora, vou lendo o blogue aos poucos. Força, coragem e boa sorte.
    bjs


  20. Muito bom acompanhar os relatos e fazer uma contraposição com a cobertura da mídia! Por favor, continuem deixando seus relatos e impressões!

    Meus sentimentos.


  21. Olá Omar !
    Sou jornalista da Globonews e gostaria muito de entrar em contato com você, para saber se poderíamos fazer uma entrevista para o Jornal das Dez. A idéia é que você possa falar como está a situação por aí, as suas impressões, o trabalho de vocês por aí… O que você acha? Como podemos fazer isso …por Skype ? Telefone ?
    Aguardo seu retorno.
    Abraço, e parabéns pelo Blog.
    Renato Cunha.


  22. Omar, sou Fabio ACM, jornalista e amigo de toda a equipe do Viva Rio, pois tb trabalho para a organizacao. Foi muito bom$ saber deste blog. Estamos eu e minha familia rezando muito por voces.
    Grande abraco e muita força.


  23. Omar, vocês estão sendo muito importantes para quem quer saber do que está acontecendo de verdade. Não esperava outra coisa de você e de sua equipe.
    Continuem nos mostrando o que a tv se recusa.


  24. Caros, estou zonza. Li este blog do começo ao fim e realmente sinto que estou diante de um documento histórico. As opiniões inteligentes e a coerência com que vocês descrevem o que se passa por aí, me fazem acreditar que finalmente estamos a um passo de sermos salvos da ditadura de um tipo de jornalismo unilateral, raso e predador. Me sinto livre para escolher o que ler e onde me informar. Vocês estão me dando a oportunidade de ver as coisas de um outro ponto. Estou espalhando este blog para o máximo de conhecidos meus. Obrigada,
    Isabel Teixeira


  25. FORÇA, QUERIDO.


  26. Caro Omar, tenho entrado todos os dias no blog. Graças a prsença de vcs, as informações sobre a tragédia dão uma dimensão mais diversificada e sobretudo refletida sobre o q está acontecendo. A mídia televisa tem aproveitado o terrível episódio para enaltecer as tropas brasileiras no Haiti.
    É irritante. Mais uma vez, expresso minha felicidade de saber q vcs estão bem. Coragem, força a serenidade para vcs e todos haitianos. beijos Karen


  27. Omar, obrigada pelas informacoes e pela sensibilidade. Este seu post nos traz de volta a humanidade, diante da cobertura tosca de nossa imprensa. A foto de Guy tb eh humanamente impressionante! Felicitacoes ao (a) fotografo(a).
    Abracos da “ex”-aluna e forca para toda a equipe!


  28. É uma satisfação e um orgulho poder acompanhar a estadia de vocês por meio deste blog. Fico feliz pelo fota da equipe estar bem e ativa frente a está catastrofe. Por favor, continuem!


  29. Omar,

    deixei, ontem, um comentário, mas talvez devido a minha conhecida perícia com computadores, ele desviou-se. Gostei muito do seu texto sobre esse emblemático reencontro. Claro, sensível, expressivo de um outro olhar sobre a dramática realidade. E, para seu alívio, sem nenhum “anacoluto”.
    Desse lado do mundo, vamos acompanhando com vivo interesse seu trabalho. Khanimambo!
    Rita Chaves


  30. Tive conhecimento esse blog hoje. Não conheço pessoalmente nenhum haitiano, nem tenho parentes ou amigos no Haiti. Mas meu coração está em dor, em luto, pela dor do rosto das crianças e adultos , que eu vi pela tv . E sei que esse é o sentimento de todos os brasileiros que eu conheço.

    Desejo muita força de consolação e reerguimento à você, ao seu amigo Guy, e à todo povo do Haiti.


  31. Oi Gente,

    Por acaso cheguei ao Bolg de vocês. Eu sou Professor e Pesquisador da UFBA e estou tentando ajudar a localizar o paradeiro do Senador haitiano Maxime Roumer a quem conheci na França nos idos de 1980 quando fazia meu doutorado. A companheira dele, a médica cubana Dra. Ana Teresita Ariosa Pineda me pediu para ajudá-la na sua busca, pois a última vez que ela falou com ele foi no domingo passado. Dra. Ana viveu aí no Haiti e regressou à Cuba para cuidar do pai que terminou morrendo no domingo passado. Ela está desesperada por notícias e as imagens apresentadas nas televisões internacionais são crueis, assim como a forma como apresentam. Enfim, sobre isto escreveremos na nossa Revista O Olho da História http://www.oolhodahistoria.org
    O que gostaria de lhes pedir é que busquem informações e nos comuniquem. Os números que tenho de Maxime Roumer são os seguintes:

    00509/35052355 (gravacion en inglês di-nos sobre imposibilidad de hablar por ello);

    /37017062 (gravación di-nos que el no está disponivel);

    /34596060 (llama, pero depués cai y se queda mudo; es el numero que me has dado ahora);

    /22557003 (se queda mudo todo el tiempo);

    /36345608 (dá como si lo estivesem utilizando)

    O celular de Dra. Ana Teresita é o seguinte:
    005352961736

    Meu e-mail é o jlbnovoa@yahoo.com.br

    Agradecemos desde já.


  32. .Could someone put me in contact with m. Dallemand

    I am a friend of his living in united states


  33. http://OmarRibeiroThomaz.

    Gracias Omar por tu nota acerca de Guy.
    Soy argentino y fui asitente de docencia cuando el gran profesor enseno en Argentina. Le decia ayer en otra nota si podia trasmitir a Guy mis saludos y referireme para obtener su email.

    Ademas hacerle conocer para que trabaje en el Programa de Socorro con PMA /ONU en Dominicana-Haiti como lider de Mision post-george.Tambien elen el Plan de Paz para Centro America.Para que tengan mi disposicion a integrarme voluntario del programa de ayuda.

    Me pueden contactar a email:ggramaglia@hotmail.com o a mi telefono en Buenos Aires :(54)11-4779-0311 o cel:(54)11-4779-0311 o por skype:guillermogramaglia o por facebook:ggramaglia.

    Mi agradecimiento por el contenido de su nota Omar.

    Un abrazo a Guy y a usted.
    Cordialmente.
    Guillermo Gramaglia.



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