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Da Zona Industrial

12 de janeiro de 2010

Tomamos a direita na rotatória que leva a Cité Soleil, bairro mais pobre e desumano de Porto Príncipe. Desta vez veremos por onde passa parte da produção da riqueza gerada pelos haitianos.

Já estamos nos acostumando à sujeira, rapidez e negritude da cidade. Hoje, esta nos mostra um colorido diferente. Centenas de crianças e jovens estão transitando pelas ruas com suas mochilas, uniformes e sorrisos. Os poucos, que parecem serem muitos, frequentadores das escolas, pensam diariamente em uma saída para si ou para seu povo. A realidade é cruel; a escola, cara – já que é praticamente toda privada.

Passamos por um portão e estamos em outro mundo. A zona industrial de Porto Príncipe é composta de 49 fábricas, dirá mais tarde nosso interlocutor peruano, diretor-executivo da empresa têxtil a qual visitamos.

O lixo, prato cheio das ONGs e um dos maiores problemas nacionais, não é problema na zona industrial – pelo menos não visível.

Guaritas estão dispostas em lugares estratégicos para “garantir a segurança” dos trabalhadores haitianos. A zona dá a impressão de uma mini-cidade onde tudo funciona bem. Não tentem estabelecer qualquer relação com uma zona industrial brasileira. Uma comparação mais admissível seria com o Panóptico foucaultiano.

Chegamos a nosso destino – a fábrica coreana que produz camisetas.

A fábrica é famosa por empregar surdos-mudos. Uma protagonista na integração de deficientes, pensamos nós. A deficiência, no entanto, logo se transforma em eficiência. Os surdos-mudos, como diz Antonio, não desviam sua atenção facilmente. São ideiais para trabalharem no controle de qualidade. Cômico, se não fosse trágico.

No total, são 25 mil operários. Mil e quinhentos são empregados pela empresa coreana – divididos em 6 galpões. Visitamos um destes.

Passamos por outro portão e entramos direto no primeiro olho do Panóptico. Se a referência a Foucault não é a melhor, talvez imagem mais representativa do “olho” seja visível nas primeiras cenas de Tempos Modernos, filme de Charles Chaplin. No filme, porém, o chefe assiste a fábrica através de uma televisão. Na empresa coreana, a relação é apenas mediada por um vidro.

Subimos ao primeiro andar e entramos no segundo olho. Ali conversamos com Antonio, que logo nos traz a dona da empresa (ou uma das). A coreana aparece com uma fita métrica no pescoço. Devia estar medindo o comprimento da folha de pagamento, imagino eu.

Toda a produção é exportada. Bom seria isto se a maior parte dos produtos consumidos no Haiti – inclusive de vestuário – não fosse importada. Exportada para onde?, pergunto eu ao peruano. Aos Estados Unidos, responde ele sem titubear. Aos poucos vamos desobscurecendo a lógica nefasta que rodeia a indústria de um dos países com a mão-de-obra mais barata do mundo.

O peruano logo mostra certo descontentamento prático com a Minustah. Segundo ele, um batalhão de soldados chineses está estabelecido dentro da zona industrial. O espaço ocupado por eles, se tomado pela fábrica, poderia gerar mais de 1000 empregos em uma semana.

Se é possível montar uma fábrica destas em uma semana, quanto tempo é preciso para desmontá-la?, nos perguntamos. Ao mínimo sinal de revolta dos trabalhadores que não possa ser suprimido pelo enorme exército de reserva ávido por trabalho, o porto está a poucos quilômetros e outros países miseráveis estão a postos para receber uma nova geradora de empregos.

Após pouco mais de meia hora de conversa, deixamos o pequeno paraíso capitalista. Na quinta-feira voltaremos para visitar o chão de fábrica. Aguardem fotos e novas informações.

Otávio

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12 comentários

  1. Gostei muito do texto! De alguma forma eu já estava supondo que o Haiti não tinha um grande desenvolvimento industrial, apesar das condições favoráveis para a exploração de mão de obra barata. Mas eu queria saber então quanto ganha um operário no Haiti, quanto é o salário mínimo e coisas assim. Pq pelas condições do país que vcs relataram, o Haiti deve ser campeão na super-exploração do trabalho. Postem no blog essas informações quando puderem!
    beijos!


  2. Fui eu pesquisar o “Panóptico foucaultiano”.Minha ignorância não me permitiu entender o que seria isso. Como deve ser, para todos vocês, estudantes, que logo retornarão ao Brasil,que por um “momento” estão presenciando tudo isto, e ao mesmo tempo não podem fazer nada? Claro que no sentido restrito da palavra, Pelo que li nesta descrição percebo que, além de muito bem escrita e fácil de entender, o país não tem saida, se não houver uma grande revolução, que ao meu ponto de vista, muito difícil. Otávio estou gostando bastante do blog, está superando todas as minhas expectativas a respeito das descrições feitas por todos vocês, leio de todos os estudantes, confesso, que sempre espero algo novo, feito por você.Um grande abraço do José do Jorge e da Andréia.


  3. oi, pessoal! acho que por distração minha, não tinha reparado que dava pra comentar aqui; tenho acompanhado as postagens, e gostado bastante! continuem postando fotos e vídeos, e relatos sensíveis. gostei especialmente do post do omar, ‘sobre zumbis’: mescla de sociologia crítica com etnografia e atenção às particularidades locais. imagino que vocês terão muito material e vivência pra delinear (ou desenhar) um pouco do que é a cosmologia haitiana (ou as cosmologias, no plural). beijos! boas viagens! stella (sociais 06)


  4. Cara deve ser bem difícil ver tudo o que tá acontecendo por aí – da pobreza, da guerra civil, da desgraça até o desastre. Como que o povo daí está se organizando? Uma coisa que sempre fica na minha cabeça é a influência de Cuba. Não é possível que não tenha repercussões nas ilhas. Como é o campo aí no Haiti?
    Muito massa o relato. Quanto mais melhor,temos que criar os nossos meios de comunicação mesmo rs.


  5. Olá,

    Gostaria de fazer uma entrevista com vocês para a programação aqui da CBN. Vcs têm alguma forma de comunicação fonada? Rádio, Telefone, Skipe ou celular. MAnde um e-mail para mim com a resposta. abraço!

    Valter Sena
    Editor Chefe
    CBN Campinas
    sena@cbncampinas.com.br


  6. Muito bom o texto Otávio!


  7. Pessoal, fiquei muitíssimo preocupada quando soube dos tremores de terra por aí. Mas o alívio veio logo, quando vi o aviso do Diego pelo Orkut falando que estavam todos bem. Foi como poder respirar livremente denovo.
    Agora de manhã ouvi o depoimento do Omar no UOL e confesso que me emocionei muito. A situação por aí deve estar caótica e exigir muita frieza para conseguir se tomar decisões como essa de ficar para ajudar no resgates. Decisão essa que me deixa ao mesmo tempo um pouco apreensiva e muito orgulhosa. Apreensiva pelos riscos que um trabalho como esse apresentam, mas que são ínfimos comparados à possibilidade de ajudar essas pessoas numa hora como essas.
    Desejo muita sorte pra vocês nessa empreitada, assim como muita força e a cabeça no lugar, porque as cenas devem ser das mais fortes. Vai aqui meu pensamento positivo e toda a boa energia que eu puder mandar pra vocês.
    Amigos queridos, muitos beijos e muita força.


  8. Relato interessante.


  9. O pior que homens como esses querem culpar a Deus pelo que eles tem feito



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