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Do centro de Porto Príncipe

8 de janeiro de 2010

O barulho é intenso. Pessoas, animais, carros, objetos e estruturas distribuem-se por caminhos ora tortos ora ordenados. Colunas, desenhos arquitetônicos e materiais abrem-se em figuras criando um espaço nada rígido. Em meio a isso, as pessoas se organizam e vivem suas histórias, estabelecendo relações entre si, com os objetos e com a própria cidade.

Enquanto tudo no centro parece estar exposto e disponível à troca, ao longe, no alto dos morros que circundam a região central de Porto Príncipe, vemos as grandes mansões, enclaves neoclássicos, sem sinal aparente de vida. Me pergunto se essas casas ainda estão ocupadas, e se as pessoas que, por ventura ali vivem, descem para o centro.

Em meio a assimetrias da capital haitiana, abre-se um lugar cheio de cor, movimento e vida, e o centro revela-se uma das partes mais intensas da cidade. A velocidade com que se alteram as determinações ali dá a impressão de que nem as ruas nem as construções estarão lá no dia seguinte. Chama a atenção o fato de que muitas lojas da cidade estão fechadas, numa idéia de abandono, enquanto em frente o comércio ambulante fervilha. Vende-se de tudo e presta-se serviços os mais diversos possíveis em barracas ou em cestos carregados por pessoas. E mais, a aparente escassez dá lugar à multiplicação de fragmentos das coisas, em que remédios são comercializados em pequenas cartelas avulsas e produtos são redistribuídos em embalagens reaproveitadas.

Em muitas das ruas, o chão é carregado de uma massa úmida, cor de cimento, como se um rio tivesse secado ali recentemente, deixando pra trás uma quantidade inimaginável de um lixo vindo de alhures e uma população ribeirinha amontoada em meio à pobreza.

Rodrigo (“Capitão Sírio”)

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Descemos do nosso tap-tap, no Champ de Mars, a principal praça de Porto Príncipe, na região central da cidade e nos deparamos com muita gente pela praça e as ruas ao redor. Os prédios degradados em volta dão a impressão de um passado não muito distante, mas mais colorido e menos decadente; a exceção é o imponente Palácio Nacional, localizado de frente a praça, pintado com sua brancura impecável e indiferente à massa negra que o rodeia. A quantidade de pessoas circulando, vendendo as mais variadas coisas ou simplesmente sentadas em grupos é impressionante. Essa grande movimentação, somada às vozes de uma língua incompreensível para mim, o barulho do trânsito intenso, e a música que vem de vários lugares e em diferente ritmos se entrelaçam num resultado intenso e veloz.

Somos bombardeados por olhares o tempo todo, afinal são 9 brancos andando juntos ali, e uma estranha sensação que nunca havia sentido antes é causada basicamente por chamarmos a atenção (e muita) somente por sermos brancos (e é claro com toda sua significação histórica). As reações das pessoas foram das mais variadas, desde risadas, expressões que me pareciam de intimidação ou o que eram apenas olhares de curiosidade. A presença de uma grande quantidade crianças sempre pedindo coisas e que às vezes nos seguem por vários metros é marcante demais para não ser relatada.

Caminhamos em direção às ruas mais centrais e de repente somos “jogados” em algo que a primeira vista pode ser chamado de um caos gigantesco. É uma das principais ruas da cidade e as pessoas disputam espaço nas calçadas com uma infinidade de vendedores e as ruas com os carros que parecem travar uma batalha para andar em um trânsito absurdo. As informações chegavam numa velocidade intensa e os olhares e reações das pessoas eram ainda mais intensos, com certeza sentidos por todos do grupo. Uma frase do Omar que me lembro nessa hora foi “Eu adoro isso aqui, esse caos é incrível” e confesso que no primeiro instante foi um pouco difícil de concordar, talvez por causa do que parece uma bagunça generalizada, da sujeira, e do mal cheiro.

As calçadas e parte das ruas são tomadas pelos vendedores e suas barraquinhas. Se vende de tudo, de computadores antigos e novos, a celulares e principalmente roupas, sapatos e muita comida. A maioria das antigas lojas estão fechadas, e as casas e sobrados, com suas varandas, se estendem até as ruas, e me fizeram imaginar como eram aquelas fachadas coloridas no passado, e que hoje se encontram decadentes e cores desbotadas.

Ao longo das ruas começamos a perceber, sempre alertados pelo Omar, como aquilo tudo era na verdade um grande mercado e como deve desempenhar um papel fundamental em Porto Príncipe, pondo as pessoas, as mercadorias e as coisas em circulação. O que na primeira impressão era o caos generalizado para mim, o “de fora”, o “blan”, começou a tomar forma e ganhar ordem, e mesmo que isto não seja nem um pouco claro, ganha cada vez mais o meu entusiasmo.

Diego (“Zé Bundinha”)

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3 comentários

  1. Acho que posso dizer não só por mim, mas por todos aqueles que estão acompanhando a viagem de vcs, que todos os relatos até agora são incríveis e despertam nossa curiosidade e vontade de conhecer o Haiti! Aproveitem MUITO a experiência e continuem postando aqui no blog!

    beijos!


  2. Isso que vc escreveu me faz lembrar uma célebre frase de Fernando Pessoa…”Para viajar basta existir”… Detalhes minuciosos,escrita fácil e uma leitura que prende, escreve muito bem.
    Estou acompanhando vocês.


  3. Meus queridos haitianos!

    Com o terremoto no Haiti o blog de vocês está sendo divulgado até no Yahoo Notícias! No mais estou aqui, como todos que conhecem vocês, preocupada querendo notícias!
    Isso me lembra da aula do Omar em que ele disse que não há “antropologia da guerra”, pq a mãe do antropólogo não deixa …

    Se cuidem!

    beijo grande,

    Jana



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